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Batman: O Retorno

Por Cleiton Lopes

Meu herói de infância é, sem dúvida, o Batman. E isso foi, mais uma vez sem dúvida, devido a versão de Tim Burton. Nasci justamente em 1989, ano de lançamento de Batman – O filme e que a trilha do filme, cantada por Prince, foi uma das músicas mais tocadas no rádio (certamente a ouvi algumas vezes na barriga de minha mãe). Desde então, nutri um apreço muito grande pela figura do homem morcego, tanto que muitas vezes fico me perguntando a que ponto suas características e valores foram influentes na formação de minha personalidade.

Eu me lembro de ainda criança assistir aos filmes na TV. Na época meu pai não tinha condições de comprar um vídeocassete para casa e minha fonte de filmes era principalmente a Sessão da Tarde. Mas me recordo que os filmes do Batman não costumavam a passar na parte da tarde, lembro de assisti-los a noite. O jeito que encontrava para ao menos tentar, assistir Tela Quente até altas horas, era dormir na parte da tarde. Ás vezes eu falhava e caia no sono no meio do filme. Acordava no outro dia já na minha cama sem saber como a história terminou e nem como fui parar alí. Lembro também que parecia ser uma eternidade entre eu acordar da minha cochilada vespertina e o fim da novela (que ainda era as 20hrs) para, enfim, começar o filme.

Pirava nos equipamentos, no cinto de utilidades e tudo que compunha o herói. Ainda não havia uma quantidade de adaptações de quadrinhos como hoje. Era raro produções do tipo e não tinha nenhum nerd na família que pudesse me introduzir à esse universo das HQ’s. Minhas referencias de herói, e dos da maioria da minha idade, eram os desenhos que passavam na TV como a clássica série animada X-Men (1992 – 1997). Entre elas tinha a animação Batman: A Série Animada (1992 – 1995) que foi bem influente para consolidar essa figura do herói em mim. Essa animação se tornou clássica e até hoje é bem vista pelos fãs. Inclusive por ter Mark Hamill, o Luke Skywalker de Star Wars, como dublador original do Coringa.

Uma das minhas Bat Relíquias é a edição da revista SET com a matéria sobre o lançamento de Batman, O Retorno.

Vendo Batman – O Retorno (Batman Returns, 1992) hoje, agora não mais como uma criança, mas como crítico de cinema eu penso: cara, esse filme não é exatamente para crianças, mas eu assistia (isso explica muita coisa). Certamente por que não tinha maldade nenhuma. Acredito que aos olhos de uma criança o filme não tem nada demais. Eu estava mais interessado nas cenas de luta, em pinguins com foguetes nas costas e Batman chutando bundas do que em qualquer possível contexto erótico ou sexual. Afinal, eu nem sabia o que era isso. Inclusive esse foi um dos problemas que fizeram Tim Burton ser obrigado a deixar o homem morcego de lado. Quem em sã consciência iria colocar lambidas sensuais em filme de criança? Tim Burton fez.

Burton já enfrentava algumas dificuldades logo no primeiro filme do herói, já declarou abertamente que gostaria de mudar algumas coisas no roteiro, mas os estúdios não permitiram. Um outro foi a escolha de Michael Keaton como Batman / Bruce Wayne. Keaton era conhecido por comédias e seu perfil não batia com o que era esperado para um herói, mas acabou ficando ele mesmo. A escolha de Burton foi devido à já ter trabalhado com o ator em Os Fantasmas se Divertem (Beetlejuice, 1988) e gostaria de continuar a parceria.

Em uma das entrevistas de divulgação do filme Birdman ou (A Inesperada virtude da Ignorância) (The Unexpected Virtue of Ignorance, 2014), Keaton foi perguntado sobre o que ele achava da então recente escalação de Ben Affleck para ser o novo interprete do Homem Morcego em Batman vs Superman: A Origem da Justiça (Batman v Superman: Dawn of Justice, 2016) depois que Christian Bale ter interpretado o herói na trilogia de Christopher Nolan. O ator respondeu da seguinte forma:

Chris Nolan é ótimo, mas eu nunca vi nenhum dos filmes do Batman inteiros. Sei que são bons, eu apenas tenho zero interesse nesse tipo de filme. Quero dizer, as pessoas me perguntam ‘Ben Affleck vai ser um bom Batman?’, e minha atitude é, primeiro, por que você está perguntando isso para mim? Segundo, ele provavelmente será muito bom, e terceiro, francamente, é tudo tão preparado agora que você estranhamente está meio a salvo. Uma vez que você entra naquelas roupas, eles realmente sabem o que fazer com você. Era difícil [na minha época], não é tão difícil agora”, declarou o ator.

Keaton e Burton no set de Os Fantasmas se Divertem

Keaton e Burton no set de Os Fantasmas se Divertem

O primeiro filme Batman gastou 55 milhões de dólares e foi a produção mais rentável da Warner até então. Faturou cerca de 500 milhões em bilheteria, 200 milhões com vendas de direitos em vídeo e mais de 1 bilhão de dólares com produtos licenciados. Apesar do sucesso a continuação, Batman – O Retorno, só foi lançada 3 anos depois, devido a Tim Burton, conforme dito anteriormente, não ter ficado satisfeito com a produção original. A continuação estreia em 1992 e rende a metade do primeiro com 268 milhões de dólares. Números que foram o principal fator que fez Burton sair da direção dos filmes seguintes.

Batman – O Retorno foi aclamado pelos críticos e até hoje é considerado um dos melhores longas do herói no cinema. Também foi considerado um dos blockbusters mais bizarros da história. Inclusive, segundo o biógrafo Ken Hanke em Tim Burton: An Unauthorized Biography of the Filmmaker (1999), o McDonald’s chegou a cancelar um contrato que tinha com a Warner para divulgação do filme, devido a figura abjeta do Pinguim. Seria complicado vender McLanche Feliz tendo como brinde uma criatura suja, cuspindo sangue pela boca. Por isso, temos os odiáveis filmes neon de Joel Schumacher, Batman Eternamente (Batman Forever, 1995) e Batman & Robin (idem, 1997). Com tudo colorido e recheado de neon é fácil conquistar as crianças.

O segundo filme de Burton com Batman faz parte mais do seu universo “freak” do que propriamente um filme de herói. Principalmente como visto hoje numa era Vingadores e cia. Essas figuras “abjetas” que surgem no filme tiveram forte influencias do Expressionismo Alemão (movimento surgido na década de 1920 que tinha o cenário distorcido, maquiagens toscas e recursos de fotografia para mostrar como seus realizadores viam o mundo) para expressar na cenografia a complexidade dos personagens do filme.

Max Schreck (Christopher Walken), por exemplo, foi batizado com o nome do lendário ator de Nosferatu (Nosferatu, eine Symphonie des Grauens, 1922) do diretor F. W. Murnau e vestido como Dr. Mabuse personagem de três filmes de Fritz Lang, Dr. Mabuse, o Jogador (Dr. Mabuse, der Spieler, 1922), O Testamento do Dr. Mabuse (Das Testament des Dr. Mabuse, 1933) e Os Mil Olhos do Dr. Mabuse (Die 1000 Augen des Dr. Mabuse, 1960).

Max Versos

Max Shreck vs Dr. Mabuse

Outro exemplo é Pinguim /  Oswald Cobblepot (Danny DeVito) foi construido tendo como referência a figura de Dr. Caligari de O Gabinete do Dr. Caligari (Das Cabinet des Dr. Caligari, 1920) do diretor Robert Wiene um dos principais filmes do Expressionismo Alemão.

Pinguim vs Caligari

Pinguim vs Caligari

Danny DeVito contou em entrevista que estava tomando café com Kathleen Turner e Michael Douglas enquanto terminavam de filmar A Guerra dos Roses (The War of the Roses, 1989) e o primeiro Batman tinha estreado a pouco tempo. Michael então, o mostrou um jornal com a notícia de que DeVito seria o Pinguim no próximo filme do herói sendo que ainda ninguém tinha falado isso com ele. A princípio a ideia não o agradou, mas, conforme a conversa com Burton foi se desenvolvendo, ele acabou topando. Ainda bem que ele aceitou. Não consigo imaginar alguém mais ideal para o papel do que o DeVito.

“A última coisa que me interessaria era reproduzir na tela o que o Burgess Meredith (Pinguim na série de 1960) havia feito antes na televisão. Qual não foi minha surpresa quando conversei com Tim. Ele é uma pessoa muito singular, um homem muito criativo. Ele me convenceu que ser o Pinguim poderia se tornar uma experiência estimulante, divertida, novinha em folha. Quanto mais ele falava, mais eu acreditava que seria possível”, declarou o ator.

Assim como no Expressionismo Alemão, em que o espaço tinha formas distorcidas e muitas sombras refletindo o estado emocional dos autores e personagens, o espaço ocupado pelos personagens de Batman – O Retorno reflete seus estados emocionais e identificações. Burton parece beber direto dessa fonte com muita luz e sombra envolvendo os personagens. Pra mim o melhor exemplo desses “estados refletidos no cenário” é a cena da transformação de Selina Kyle em Mulher Gato.

Nessa cena, vemos a personagem entrar duas vezes seguida no mesmo cenário, seu apartamento. Na primeira vez ela entra como Selina e faz o ritual de chegar em casa (que é todo rosa e cheio de animais de pelúcia), e dizer a frase: “Querido, cheguei. Ah, esqueci que não sou casada”. Ouve as mensagens em sua secretária eletrônica, dá comida pro gato entre outras coisas. Na segunda vez, ela já se tornou Mulher Gato e faz o mesmo ritual, mas a forma que expressa as ações são o bem diferentes. Ela destroi tudo que era “fofo” no apartamento e, simultaneamente, dentro dela, chegando a se alimentar do mesmo leite que deu para sua gata.

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Letreiro rosa neon “feliz” e “fofinho” para uma mulher bela, recatada e do lar

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Pelúcias e parede rosa não podem faltar

Depois de ser jogado da janela pelo patrão, ela inicia sua transformação. O obscuro começa a invadir o quadro.

Depois de ser jogado da janela pelo patrão, ela inicia sua transformação. O obscuro começa a invadir o quadro.

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Após a fúria e a transformação, o neon rosa deixa de dar boas vindas com um “Ola você” para dizer “O inferno é aqui”. Além disso, o quadro é preenchido com uma figura gótica acima da sua janela. Sinistro…

O filme se apresenta como uma continuação do primeiro, mas não é exatamente isso. Tem diferenças significativas com relação ao seu antecessor, como a aproximação do herói com seus vilões e suas dupla personalidades entre humanos e animais. Além disso, os inimigos o tempo todo tem ciência de suas semelhanças com o herói e até utilizam isso como arma. Em uma das partes do filme, os dois antagonistas tramando algo para destruir Batman chegam a conclusão que o melhor era transformar ele naquilo que ele mais odeia: seus vilões. A ideia é fazer a cidade o odiar tanto quanto Pinguim e Mulher Gato são odiados.

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“Percebi que gosto deste material: gosto da dualidade de Batman, Pinguim e Mulher-Gato. Eles são um conjunto excelente de personagens. Além disso, são totalmente ferrados – e isso é o que têm de bonito. Ao contrário do que acontece com outros personagens de quadrinhos, Batman e seus bandidos são igualmente fracassados, o que cria outro problema – jamais os vejo como heróis ou vilões”, declara o diretor.

Uma das cenas mais interessantes do filme e que acho “sexy sem ser vulgar” é a do baile de máscaras. A primeira genialidade é ser um baile em que as pessoas deveriam usar máscaras, mas os únicos que vão sem as mesmas são Bruce Wayne e Selyna Kyle. Como se suas verdadeiras personalidades fossem respectivamente Batman e Mulher Gato. A máscara que eles usam na verdade está quando eles estão vestidos “normalmente”. Então, nada melhor do que ir de “cara limpa” numa festa destas. Além disso, existe toda uma tensão sexual entre os dois. A forma em que eles dançam rodeados de mascarados, olhar sensual de Michelle Pfeiffer com suas costas de fora, deixam a cena bem sexy. Mais a frente, numa cena em que Pinguim e Batman finalmente se enfrentam corpo a corpo, o vilão solta a seguinte frase: “Tem ciúme porque sou um doido genuíno… e você precisa usar máscara!” e o herói responde ironicamente: “Talvez tenha razão.”

A cena do baile se tornou tão famosa que foi referencia na terceira parte da trilogia de Christopher Nolan em Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge (The Dark Knight Rises, 2012). Na série Gotham (2014 – ), que conta a história de Bruce Wayne logo após seus pais serem assassinados, que vemos as versões criança dele e Selina Kyle e essa cena e diversos outros elementos do filme ainda ecoam como referencia na construção de seu universo.

A Mulher Gato de Burton foi tão impactante, que a atriz Anne Hathaway quando anunciada como nova encarnação da personagem foi bastante criticada pelos fãs (inclusive por mim) pela sua escolha. Acabou que foi OK, bem difícil superar uma referência dessa. A própria atriz duvidou da sua capacidade para interpretar a personagem. Quando foi perguntada sobre qual foi a pior parte de ser a personagem ela respondeu:

Sinceramente? Eu me convencer de que merecia essa oportunidade. Era um papel que todo mundo queria. Eu não conseguia acreditar que a oportunidade estava disponível para mim, que eu tinha a idade certa… era bom demais para ser verdade.

Baile de máscaras em Batman - O Retorno

Baile de máscaras em Batman – O Retorno

Baile de Máscaras em O Cavaleiro das Trevas Ressurge.

Baile de Máscaras em O Cavaleiro das Trevas Ressurge.

Em Gotham ainda não é um baile de Máscaras, mas a referencia é inevitável.

Em Gotham ainda não é um baile de Máscaras, mas a referencia é inevitável.

Apesar de ter sido marcante para mim e para muitos fãs do homem morcego, Burton não conseguiu, pelas razões já explicadas anteriormente, se manter no cargo de diretor dos próximos filmes do Batman. Boatos na época do lançamento de Batman – O Retorno, indicavam que a terceira parte dirigida por Burton traria novamente a Mulher Gato, que mostra as caras no últimos segundos de O Retorno e ainda mais um vilão: o Charada que já estaria com o papel reservado para Robin Williams, mas o projeto não decolou.

Burton entrou apenas como produtor do filme seguinte do herói Batman Eternamente. Sai Keaton e entra Val Kilmer como protagonista, os vilões Jim Carrey, como Charada, Tommy Lee Jones como Duas Caras, Nicole Kidman como donzela em perigo e Joel Schumacher como diretor. Batman entrava na sua detestável fase neon no cinema, que o jogou no limbo cinematográfico. Me lembro de assistir ao filme (já tinha conseguido um vídeocassete) um pouco mais velho e não achava necessariamente ruim, mas era estranho. Parecia que faltava alguma coisa ou sobrava muita coisa. Acho que meu “lado crítico da força” já estava sendo despertado e eu continuava a assistir às reprises de Burton na TV.

O herói então só seria “salvo” anos depois com Batman Begins (idem, 2005) que ganharia, mais uma vez um lugar de destaque positivo na crítica e no coração de nós, fãs. O ápice dessa nova fase foi Batman: O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight, 2008) principalmente pela atuação de Heath Ledger como Coringa que foi inicialmente criticado por nós fãs, mas que agora tem um lugar único no Batuniverso do cinema. Mas aí o assunto já é outro, é possível escrever outro artigo só sobre isso. No mais, valeu pelo excelente trabalho, Burton!

Sobre Cleiton Lopes

Formado em Cinema e Audiovisual e cinéfilo desde criança, passa o tempo sendo crítico, conhecendo filmografia de diretores e colecionando discos de vinil. Tem o sonho de conhecer David Fincher pessoalmente e completar sua coleção de Belchior.
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