Antes da existência da fala clássica de Pânico (1996) “What’s your favorite scary movie?” ou “Qual é o seu filme de terror favorito?”, o terror slasher percorreu um longo caminho desde a década de 1960 até chegar a esse clássico da década de 1990 que satiriza o próprio universo do qual faz parte. Personagens como Freddy Krueger e Jason Voorhees são exemplos de algumas das figuras que povoam a cultura pop vindos diretamente dessa ceara. 

Neste especial que começamos hoje, vamos falar a respeito das origens do subgênero do terror, suas principais características e um percurso sobre os principais nomes do gênero e suas franquias.

O EXPLOITATION OU CINEMA DE APELAÇÃO

Antes de chegarmos propriamente ao terror Slasher precisamos falar sobre o Exploitation ou, como traduzido no Brasil, “Cinema de Apelação”. São filmes com atores desconhecidos, grande parte iniciantes, e cenas apelativas com sexo, violência, consumo de drogas, nudez e coisas do tipo. Grande maioria, os filmes de apelação são tidos como de baixa qualidade, embora isso não seja uma regra geral. Alguns se transformam, inclusive, em filmes cult.

Produções desse tipo são feitas desde a década de 1920, mas ganharam notoriedade nas décadas de 1960 e 1970 com os movimentos por liberação e quebra dos tabus na sociedade, algo que consequentemente chegou ao cinema. Esse tipo de filme era exibido em drive-ins, telas de cinema colocadas em estacionamentos de carros, que nesse período estava perdendo popularidade e utilizavam esse tipo de produção para atrair o público. Além dos estacionamentos, os Exploitation também eram exibidos nos chamados Grindhouses, que eram pequenos cinemas americanos que, além dos filmes, ainda contava com coristas e até shows de strip-tease.

Pôster do Blaxploitation, Shaft (1971) um dos tipos de filme Exploitation.

 

Dentro do Exploitation, ainda existem sub gêneros como o Blaxploitation, que contava apenas com atores negros e dirigido à uma audiência afro-americana; Teenexploitation, referente a adolescentes se envolvendo com drogas, sexo, álcool e crime. No Brasil a pornochanchada, série de filmes produzidos no país durante a década de 1970, também é considerada como pertencente à corrente do Exploitation.

Os principais consumidores desse gênero eram, e ainda são, sobretudo os jovens. A ideia, ao se voltar para esse público, era impulsionar principalmente os subgêneros Sexploitation, filmes com exploração do sexo e nudez gratuita e o horror. Muitas vezes esses dois estavam juntos na mesma produção. Eram estreladas por adolescentes e destinados a eles, como já dito anteriormente, com doses de erotismo e com “denúncias” sobre a liberação dos costumes que estavam em alta na época.

Junto a isso, ganha popularidade figuras ficcionais e que eram inspiradas em crimes da vida real: o assassino em série ou serial killer. Figuras essas que já habitavam o imaginário popular nas histórias de terror desde Jack, O Estripador. A figura do serial killer alcançou um patamar diferente principalmente depois do impacto do lançamento de Psicose (1960), de Alfred Hitchcock.

Foi na junção de todos esses elementos e a influência de filmes de terror italianos da década de 1970 conhecidos como giallos, principalmente os dirigidos por Dario Argento e Mario Brava, que daria origem ao terror slasher.

O TERROR SLASHER

O terror slasher é um subgênero do terror (slash em inglês significa “golpear”) com a figura central num assassino em série de adolescentes. Depois do sucesso de Psicose (apesar de esse não ser propriamente do sub gênero), o slasher foi eternizado pelo filme de exploitation O Massacre da Serra Elétrica (1972) e em seguida, com o sucesso do cinema independente Halloween (1978). Esse último foi decisivo para a série de produções do gênero que iria surgir nas décadas de 1980 e 1990 como as franquias Sexta-Feira 13 e A Hora do Pesadelo.

O serial killer como uma das figuras mais comuns no terror contemporâneo, pode ser considerado uma das mais globalizadas do cinema e traz representações tanto atuais quanto ancestrais, como aponta Phillip L. Simpson em Psycho Paths: Tracking the Serial Killer Through Contemporary American Film and Fiction (2000). Do contemporâneo, ele pode representar o ódio patriarcal à mulher e sua recente liberação feminina, visto que a maioria das vítimas são mulheres vindas dos grandes centros. Seria um arauto do conservadorismo que ataca aqueles que desviam dos valores tradicionais. O assassino seria uma representação dos traumas sofridos na infância devido à queda das estruturas familiares tradicionais. Já, seguindo tradições mais antigas, estaria ligado a mitos como o bicho-papão e a incapacidade de evitar o destino.

A fórmula básica do terror slasher envolve um psicopata do sexo masculino, disfarçado ou deformado, que vai à caça de suas vítimas utilizando métodos violentos e armas como foices, martelos e motosserras. Geralmente ele é extremamente resistente a quedas e até a tiros e, eventualmente, possui poderes sobrenaturais. Suas vítimas estão geralmente isoladas, perdidas, acampadas, em estradas pouco movimentadas e coisas do tipo. Também é comum começarem a serem atacados em festas regradas de drogas, sexo e conversas perversas.

Leatherface em O Massacre da Serra Elétrica (1974).

Para além do psicopata, os filmes slasher trazem quase sempre a figura de uma mulher que inicialmente parece ser frágil, não tem interesse por sexo, várias vezes revela ser virgem e tem delicadeza com os amigos e respeito com os mais velhos. Ela consegue escapar diversas vezes do assassino quando, ao final, desenvolve tranquilidade e força para conseguir derrotá-lo. Essa personagem é conhecida como a final girl ou a garota final, em português, que é a pessoa que derrota o “monstro” do filme. O termo foi criado pela crítica feminista Carol J. Clover, no livro Men, Women and Chain Saws (1992)

Nesse sentido, o psicopata dos filmes seria um homem castrado, removido de sua masculinidade, fraco. Enquanto isso, a final girl tende a “se tornar homem”, ser mais agressiva e corajosa, assumindo inclusive características do sexo oposto. Usará uma arma fálica (bastão, machado, facão), fazendo no assassino algum tipo de corte, interpretado pela autora como uma “ferida vaginal”.  Visto isso, o herói ideal num slasher seria uma mulher por ser apenas ela capaz de passar de um estágio de pânico ao de heroína sem parecer fraca. Diferente do homem que se apavora diante do assassino e se “torna feminino”,  sendo menos respeitado pelo tipo de público que geralmente assiste a esse tipo de produção.

Sally (Marilyn Burns) a primeira final girl em O Massacre da Serra Elétrica (1974).

“‘Estamos falando de um carma ruim – ele precisa ir para algum lugar’, disse Wes Craven, referindo-se ao Vietnã, ao movimento pelos direitos civis, ao feminismo, à revolução sexual, aos tiroteios de Kent State e ao embargo de petróleo. Aquilo tudo foi parar numa abundancia de filmes caseiros e sensacionalistas, obliterando o mito da família nuclear e se dedicando aos doentes e despossuídos.” Trecho de O Novo Terror, de Jamie Graham, no livro Tudo Sobre Cinema.

O INÍCIO PARA GRANDES ATORES

Filmes de terror, de uma forma geral, são muito baratos de serem realizados. Principalmente os slasher. Basta um cara mascarado, algumas ferramentas velhas para servirem de armas para o vilão, um pouco de groselha para fazer o sangue e pronto. Óbvio que existe um pouco mais de complexidade nessa fórmula, mas não muito mais que isso. E como o orçamento muitas vezes é bem limitado, os atores contratados geralmente estão em início de carreira e cobram pouco para fazer qualquer papel que aparecer.

Jovem Kevin Bacon em Sexta-Feira 13 (1980)

Isso fez com que muitas das grandes estrelas que hoje em dia estão ganhando Oscar e desfilando por aí em tapetes vermelhos, já tenham passado por filmes como esses. Por exemplo, um dos primeiros papéis do ator Kevin Bacon foi em Sexta-Feira 13 (1980) em que ele interpreta um dos jovens que são caçados no acampamento Cristal Lake.

“Nós não estávamos procurando pelos melhores atores do mundo. Eu queria garotos que fossem de alguma forma carismáticos, monitores de acampamento responsáveis, não o típico nerd dos filmes de terror. Basicamente, eles tinham de ser razoavelmente bonitos, tinham de ser capazes de ler um diálogo relativamente bem e tinham de trabalhar por pouco dinheiro.” comenta Sean Cunningham, diretor de Sexta-Feira 13.

O Pirata do Caribe, Johnny Depp deu as caras a primeira vez nas telonas em A Hora do Pesadelo (1984). Depp interpretou Glen Lantz, o par romântico da protagonista Nancy Thompson (Heather Langenkamp). Inicialmente, Depp não tinha a intenção de ser ator. Ele estava tentando carreira como músico até que seu amigo Nicolas Cage resolveu indicá-lo para fazer um teste para o filme e acabou sendo escolhido. 

Johnny Depp novíssimo em A Hora do Pesadelo (1984).

“(Sara) Risher acrescenta: ‘Nós gostamos demais da química entre Johnny e Heather. Ele era claramente um astro simpático e atraente, ainda em formação’. (Heather) Langenkamp concorda, também entendendo a escolha de Depp. ‘Acho que o que se pode dizer sobre Johnny Depp é que ele tinha uma espécie de energia tranquila que muitos atores simplesmente não têm’, diz ela. ‘Foi por isso que ele se tornou um super astro’. (Trecho dos depoimentos de Sara Risher, uma das produtoras de A Hora do Pesadelo e Heather Langenkamp, protagonista do filme, extraído do livro A Hora do Pesadelo – Never Sleep Again, de Tommy Hutson).

O ator Viggo Mortensen, famoso por seu papel como Aragorn em O Senhor dos Anéis, também teve uma passagem pelo terror em Leatherface – O Massacre da Serra Elétrica 3 (1990). Enquanto no episódio seguinte, O Massacre da Serra Elétrica: O Retorno (1995) foi a vez de Renée Zellweger e Matthew McConaughey darem as caras e logo no pior episódio da franquia. Patricia Arquette, Laurence Fishburne, Paul Rudd e até Joseph Gordon-Levitt já apareceram novinhos nos filmes desse gênero.

PRINCIPAIS FRANQUIAS

A partir dessa premissa, vamos fazer um percurso sobre os principais filmes de terror slasher e suas franquias contemplando todas as produções lançadas até então. São eles: O Massacre da Serra Elétrica, de Tobe Hooper; Halloween, de John Carpenter; Sexta-Feira 13 (1980), de Sean S. Cunningham; A Hora do Pesadelo, de Wes Craven e Pânico, de Wes Craven.

No percurso dos textos, pode ser que apareçam alguns pequenos spoilers, mas nada que atrapalhe a experiência de assistir aos filmes (caso você ainda não tenha visto). Prometemos que vamos fazer o máximo possível para que não revelarmos quem morre ou não. Então, por favor, não fique com vontade de nos matar. Deixa isso só para Freddy Krueger e seus amigos. Bem-vindo e bons sustos.

Wes Craven, criador de A Hora do Pesadelo e Pânico.

 

 

“É muito fácil desprezar o mundo dos filmes de gênero e dizer ‘isso não é arte’, mas ao mesmo tempo é incrivelmente vital. […] Um filme de horror não deve existir somente pela diversão de ver pessoas sendo cortadas e fatiadas, mas você tem de admitir que tem havido um bocado de gente sendo cortada e fatiada na história humana. Certamente existe um mal eterno aqui.” Fala do diretor Wes Craven tirada do livro A Hora do Pesadelo – Never Sleep Again, de Thommy Hutson.